PONTO DE MUTAÇÃO

O primeiro é derivado dos estudos de René Descartes e trouxe a visão de que o cosmos poderia ser entendido como um relógio. A natureza seria então uma máquina, onde bastava desmontar as peças e entendê-las para compreender o todo. Esta linha de raciocínio foi aceita em definitivo quando Isaac Newton formulou as três leis da física que descreviam o movimento, e tomou conta das artes, da política e da sociedade. Pessoas que sequer sabem quem foi Descartes e Newton vivem inseridas em uma rotina de vida baseada na perspectiva destes pensadores. Que perspectiva seria essa? A de que a vida social é composta de fatos isolados. Quantas pessoas eram vistas, nas ruas, comentando que o governo brasileiro não deveria emitir opinião sobre a guerra do Iraque porque ela estava acontecendo do outro lado do mundo, e portanto, não teria nada a ver com o Brasil? Ou quantas acham que a morte de crianças na Somália não tem relação nenhuma com a desnutrição das crianças no interior do nordeste, por exemplo? Estas são opiniões cujas raízes foram construídas dentro de uma visão de mundo mecanicista (ou cartesiana).
A teoria holística segue o caminho oposto. O termo derivado do grego quer dizer, de maneira geral, “o todo”, “o completo”. Essa teoria investiga a relação de cada parte dentro da totalidade e a influência desta totalidade em cada parte, dando ênfase nas interações existentes entre elas. Para o holismo, o mundo é como um jogo de quebra-cabeças, onde cada peça tem uma função importante como complemento da figura e, sem uma delas, o jogo fica incompleto. Por este motivo, se enfatiza a preservação da vida a partir da prevenção de problemas, e não da intervenção – como é realizado em um modo de vida mecanicista, onde os desastres precisam acontecer para que se tomem providências.
O pensamento holístico defende uma visão de mundo integrada. Aqui, as crianças da Somália, que morrem de fome, e as brasileiras, que morrem de desnutrição, não são tratadas como dois problemas separados e sim frutos de uma mesma crise, descrita em uma das cenas pela personagem de Liv Ullmann: “Vocês sabiam que, no mundo todo, todo dia, 40 mil crianças morrem de desnutrição e doenças evitáveis? Quase a todo segundo? Agora…e agora…e agora…
Mas estas curtas vidas não podem ser vistas isoladamente. Elas são parte de um sistema maior, que envolve a economia, o meio ambiente, e sobretudo a grande dívida do Terceiro Mundo. O fardo dos empréstimos frenéticos não recai sobre quem tem contas no estrangeiro ou empresas, mas sim sobre os que já não têm nada! Há três anos, um presidente perguntou: ‘Crianças devem passar fome para pagarmos a dívida?’ Tal pergunta foi respondida na prática, e a resposta foi ‘sim’, porque, desde então, milhares de crianças do Terceiro Mundo deram a vida delas para pagar a dívida de seus países e outros milhões pagam os juros com corpos e mentes subnutridos”.
Nesta linha de pensamento, esta crise seria resolvida se as pessoas começassem a pensar que tudo está interligado e é interdependente. Seria sair de uma percepção individualista para uma percepção coletivista da vida. Como diz a personagem da cientista mais à frente, “os índios americanos pensavam nas conseqüências de suas ações até a sétima geração” e é este tipo de vivência responsável que é colocada no filme como solução para a reestruturação da sociedade moderna. Vale salientar que o filme faz uma crítica aberta não apenas ao modo de vida moderno, mas especificamente à sociedade ocidental, representada pelo american way of life. Todos os exemplos de um modo de vida viciado, mercantilista, individualista e cartesiano são atribuídos à sociedade americana.
A REALIDADE: QUEM PRECISA DELA?
Os conflitos, no entanto, não se resumem às teorias. Ao serem debatidas pelos três personagens, elas trazem a tona suas tempestades pessoais que também são fruto desta crise de percepção da humanidade. Jack, Thomas e Sonia notam que, embora tenham noção de como o mundo deveria ser, eles não conseguiram, até aquele momento, implantar suas teorias em suas próprias vidas. Jack não sabe como integrar política com a visão de mundo proposta por Sonia. Esta, por sua vez, descreve de maneira espetacular como os sistemas se integram, mas não consegue manter uma relação normal e saudável com sua própria filha. E Thomas, juntamente com Sonia, é um fugitivo. Isolaram-se em uma ilha e não têm pretensões de voltar a desempenhar seus papéis sociais. Para que ter idéias brilhantes se elas não são compartilhadas? Para que projetar um modo de vida melhor se não se tem coragem de lutar por ele? É isto que questiona Jack, ao dizer que seus amigos são como vozes que gritam no meio do deserto, ao contrário de voltarem para o mundo real e tentar conviver com as adversidades presentes nele.
Este questionamento parece despertar em Thomas uma lição e ele então recita o seguinte poema:
O que uma lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados?
Respondo que o oceano sabe.
Por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu.
Quem as algas apertam em teus braços?, perguntas mais firme que uma hora e um mar certos?
Eu sei perguntas sobre a presa branca do narval e eu respondo contando como o unicórnio do mar, arpado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei-pescador que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano sabe isto: que a vida, em seus estojos de jóias, é infinita como a areia incontável, pura; e o tempo, entre uvas cor de sangue tornou a pedra lisa encheu a água-viva de luz, desfez o seu nó, soltou seus fios musicais de uma cornicópia feita de infinita madrepérola.
Sou só uma rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja. Caminho como tu, investigando as estrelas sem fim e em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe dentro do vento.
O poema de Pablo Neruda é usado como uma metáfora de tudo o que eles passaram naquele dia de convivência. Ao buscar respostas para as saídas do mundo, eles recaíram sobre as perguntas que mantinham dentro de si. Caminha-se investigando as estrelas sem fim, os mistérios do mundo e quando se acorda a única coisa que se tem em mãos é a própria vida, as relações que a ela pertence, as pessoas que se ama, que se quer bem. Um dos últimos discursos de Thomas no filme diz que a vida sente a si mesma e é maior que as teorias que a condensam em um relógio ou em um sistema cujas partes se interligam. A realidade. Sim, precisa-se dela.

