FILOSOFIA E LITERATURA

LITERATURA E

FILOSOFIA

Gostaria de adentrar na problemática “Filosofia/Literatura” a partir de um recorte mais preciso, proposto pela coletânea preciosa, intitulada Literarische Formen der Philosophie, organizada por Gottfried Gabriel e Christiane Schildknecht (Metzler, 1990). O tema “formas literárias da filosofia” tem a vantagem de não colocar uma questão normativa a respeito das diferenças e dos domínios específicos da literatura e da filosofia, mas de suscitar uma auto-reflexão sobre as diversas formas literárias (no sentido amplo, defendido pelo Romantismo Alemão, do conceito de literatura) que caracterizam o discurso filosófico. A hipótese de príncipio consiste em afirmar que tais formas não são indiferentes ou exteriores aos enunciados filosóficos, mas, enquanto formas de exposição ou de apresentação (Darstellung), participam inseparavelmente da transmissão de conhecimento ou da busca de verdaade que visa o texto filosófico. Negligenciar estas formas, afirmando que são um aspecto “meramente retôrico” do discurso filosófico não consiste só em aceitar, de maneira acrítica, a discrepância entre “forma” e “conteúdo”, mas também em incorrer em vários erros de interpretação (por exemplo, quando se lê os Diálogos de Platão como se formassem um Sistema).

O movimento auto-reflexivo da filosofia sobre seu carater de linguagem (sprachlich), isto é também sobre sua forma literária, permite, em termos de história da filosofia, uma leitura renovada, mais atenta à singularidade dos textos. G. Gabriel dá o exemplo do texto da “prova ontológica”; quando se lembra que o texto de Anselmo é um tipo de oração (proslogion), o caráter de prova (onto)lógica passa a ter um outro peso, pois tratar-se-ia aqui muito mais de confirmar a própria fé do que de provar logicamente a necessidade da existência de Deus. Poderiamos também dizer que ler o Zaratustra de Nietzsche como um poema teatral , com indicações de ritmo e de palco, suscita uma outra compreensão da função dos animais ou do além-do-homem. Sem falar de todos mal-entendidos oriundos de uma leitura que torna o Tractatus de Wittgenstein um manual de epistemologia ou as Teses de Benjamin umas lições de filosofia da história.

Mas a auto-reflexão da filosofia sobre sua “literalidade” não traz só proveitos metodológicos ou hermenêuticos. Mais fundamentalmente, ela remete a três conjuntos de questões que sempre acompanharam a filosofia desde sua origem em Platão, enquanto gênero discursivo diferente de outros gêneros – e a filosofia de Platão pode ser tomada como campo privilegiado dessas questões. Primeiro, o fato de se tratar, em filosofia, não só de linguagem, mas mais precisamente de textos escritos: isto é toda reflexão sobre oralidade e escritura, sobre transmissão oral da sabedoria e codificação escrita (ver, em relação a Platão, todo debate sobre a “condenação da escrita” e sobre “as doutrinas não-escritas”). Segundo, o fato que a multiplicidade de formas literárias em textos filosóficos também remete á separação entre uma filosofia ligada ao ensino, da Academia de Platão até a universidade de hoje, uma Schulphilosophie mais erudita e técnica, e uma filosofia entendida como exercício de meditação ou de atenção, como tomada de posição e como prática teórica, como Weltphilosophie. Enfim, em terceiro lugar, a multiplicidade destas formas também traduz as diferentes tentativas de abordar aquilo que excede a linguagem discursiva (logos), aquilo que a transcende, aquilo que não pode ser dito, seja este algo chamado de Verdade, de Deus, de Real, ou, ainda da relação entre linguagem e mundo. Em outras palavras, a reflexão sobre as formas literárias da filosofia também significa uma reflexão crítica sobre os seus limites.


RØMERΦ ®

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